Professora assassinada tinha registrado B.O. relatando bilhete anônimo

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A vítima foi encontrada por entregadores caída na porta de sua residência na Rua dos Bandeirantes

A professora aposentada Adriana Mistilides Silva, 56 anos, mandou instalar câmeras de segurança poucos dias depois de terminar o relacionamento com o servidor público Alexandre Diamantino, 48 anos. Ela também registrou um Boletim de Ocorrência relatando ter recebido um bilhete anônimo. No fim da manhã desta segunda-feira, 9 de agosto, Alexandre foi até a sua casa, na Rua dos Bandeirantes, e a matou, descarregando um revólver calibre 38 sobre ela. A investigação também vai aprofundar as suspeitas sobre a autoria do bilhete. 

As imagens dessas câmeras ajudaram a polícia a estabelecer a dinâmica dos acontecimentos. Elas mostram o momento em que o assassino chega à residência e é recebido com gentileza pela professora, que chega até a abraçá-lo. 

“Vimos quando ele chega entre 8 e 9 horas trazendo consigo uma sacola de compras. Ele toca a campainha, ela sai e recebe ele muito bem, ambos sorrindo, inclusive se abraçam. Depois eles entram na casa. Uma testemunha também viu isso e contou que passados cerca de 40 minutos ouviu os tiros”, disse o delegado Sebastião Biazi, que coordena a investigação do caso.

Em uma das mãos, Alexandre carrega uma sacola de papelão de compras e dentro a arma que usaria no crime. “Nós encontramos a sacola sobre um móvel na sala e dentro ainda estava o celular dele e um coldre [estojo para armas de fogo], então deduzimos que a arma também estava dentro da sacola quando ele chegou e ela nem percebeu”. 

Segundo o delegado, o assassino estava com munição sobressalente e recarregou a arma depois de disparar todos os projéteis na direção da vítima. “Pela cena do crime, [deduzimos que] ele chegou ali armado com um revólver calibre 38, fez então o primeiro disparo nela, só que acertou o braço e ela tentou sair correndo e levou um segundo disparo pelas costas, que transfixou. Aí ela estava na porta da sala já saindo para a área da frente, quando levou um terceiro disparo, que dessa vez atingiu a parte da frente da cabeça e também transfixou. Foram vários disparos porque nós encontramos projéteis deflagrados e projéteis intactos, então [concluímos que] ele recarregou a arma”, disse em entrevista.

No chão da cozinha, a polícia encontrou três cápsulas deflagradas e uma intacta, e dentro do tambor da arma havia mais quatro intactas e duas deflagradas. “Somando as três cápsulas deflagradas no chão e as duas na arma, são cinco tiros, incluindo o dele mesmo”, disse. 

O médico legista também encontrou indícios de ferimentos à bala na coxa, no punho e no peito da vítima. Mas o delegado explicou que a necropsia costuma contar as perfurações e não os tiros. Assim, um mesmo projétil pode ter feito mais de uma perfuração. 

“Normalmente, a pessoa levanta o braço num instinto de defesa e o tiro atravessa o braço e atinge outra parte do corpo. Pode ter sido isso que aconteceu”, supõe.

Depois de matar a professora e recarregar a arma na cozinha, Alexandre Diamantino, 48 anos, foi até um dos quartos, colocou o mesmo revólver na sua boca e disparou de baixo para cima, tirando a própria vida. 

Para a polícia, tudo indica que se trata de um feminicídio seguido de suicídio. Ambos mantiveram um relacionamento amoroso que terminou há cerca de um mês. Para pelo menos uma pessoa, ela relatou que Alexandre não teria se conformado com o término. 

Mais ou menos na mesma semana que desfez o relacionamento, a professora registrou um Boletim de Ocorrência, onde reclamava que alguém estava jogando pedras na sua casa, mas não mencionou o nome do ex. A suspeita ainda será investigada. 

Por outro lado, além das imagens das câmeras, uma testemunha contou que os dois foram vistos conversando amistosamente no portão da casa e a própria professora teria franqueado a entrada do ex à sua casa. Isso, na opinião do delegado, pode enfraquecer a versão de ameaça. 

Entregadores encontraram o corpo

Apesar de ter ouvido os disparos, não foi a testemunha quem chamou a polícia. O crime foi descoberto cerca de duas horas depois por entregadores de uma loja de Fernandópolis, que traziam materiais de construção e viram o corpo da professora caído na porta da casa. 

“Ao chegar à residência dela, eles viram ela caída na porta da sala, com a cabeça para o lado de dentro da casa e o restante do corpo e as pernas para o lado de fora. Foi quando acionaram a polícia militar que esteve rapidamente no local”. Foi a PM quem entrou na casa e encontrou o corpo do assassino, no quarto. 

“A investigação está a cargo da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) que vai continuar ouvindo as pessoas e colhendo informações e provas materiais, mas a princípio a linha é de feminicídio e nesse caso o autor acabou tirando a sua própria vida”.

Adriana era classificada como alegre, elegante e de alto astral, muito querida por ex-alunos e colegas do magistério que exerceu, inclusive na Escola Estadual Dr. EuphlyJalles. Era irmã da ex-prefeita Nice Mistilides Silva. Deixa três filhos adultos, frutos do casamento com um policial civil, e três netos. 

Alexandre não tinha passagens pela polícia e além de servidor da Justiça, era advogado e meio-irmão da vereadora Andréa Moreto Gonçalves. Ambos são filhos do ex-assessor parlamentar, Orlando Gonçalves, conhecido nos meios políticos como Coca. Pessoas próximas o descrevem como muito inteligente. Outras relataram que ele tinha ficado depressivo, depois do fim de outro relacionamento. 

Biazi adiantou à reportagem que vai ouvir outras pessoas, inclusive familiares da vítima, para saber se ela tinha relatado alguma ameaça. O caso foi registrado como homicídio qualificado, porém, a morte do autor inviabiliza a condenação.

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