PF já identificou 100 alunos que compraram vaga em curso de medicina

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Um dos diretores da Universidade Brasil foi preso em Fernandópolis

A Polícia Federal vai concentrar esforços na identificação e indiciamento de estudantes que pagaram para conseguir financiar seus estudos irregularmente através do programa de Financiamento Estudantil do Governo Federal (FIES), conquistar bolsas do PROUNI (Programa Universidade Para Todos) e praticaram outras fraudes relacionadas a cursos de complementação do exame Revalida. Pelo menos 100 estudantes já foram identificados, mas o número pode ser muito maior que esse e pode abranger até mesmo estudantes que já se formaram e atuam no mercado de trabalho.

Entre eles, existem filhos de fazendeiros, servidores públicos, políticos, empresários e amigos dos donos da universidade, todos com alto poder aquisitivo, portanto, sem perfil socioeconômico de beneficiário do FIES. Os alunos e pais, que aceitaram pagar pela vaga ou financiamentos públicos também responderão pelos crimes.

As conclusões são oriundas de oito meses de investigação sobre um grande esquema de fraudes na concessão do Financiamento Estudantil do Governo Federal (FIES) e na comercialização de vagas e transferências de alunos do exterior (principalmente Paraguai e Bolívia) para o curso de medicina da Universidade Brasil em Fernandópolis. Bolsas do PROUNI e fraudes relacionadas a cursos de complementação do exame Revalida também estão sob investigação da PF.

O caso veio a público na última terça-feira, 3 de setembro, quando a PF deflagrou a Operação Vagatomia. Aproximadamente 250 policiais federais cumpriram 77 mandados judiciais expedidos pela Justiça Federal de Jales em Fernandópolis, São Paulo, São José do Rio Preto, Santos, Presidente Prudente, São Bernardo do Campo, Porto Feliz, Meridiano, Murutinga do Sul, São João das Duas Pontes e Água Boa no Mato Grosso. Entre os mandados judiciais expedidos estão 11 prisões preventivas, 11 prisões temporárias, 45 ordens de busca e apreensão e 10 medidas cautelares (alternativas à prisão). A Justiça Federal também determinou o bloqueio de bens e valores dos investigados até o valor de R$ 250 milhões.

J.F.P.C. e seu filho S.B.P.C. (respectivamente reitor e diretor da universidade) tiveram suas prisões decretadas, assim como alguns diretores e funcionários das unidades onde as fraudes foram identificadas (São Paulo, São José do Rio Preto e Fernandópolis/SP).  Pessoas que vendiam as vagas também estão entre os presos.

O empresário S.B.P.C, foi preso por policiais federais no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando chegava ao Brasil vindo de uma viagem ao exterior. Seu pai, J.F.P.C. também foi preso em sua residência em um apartamento em SP. Alguns investigados tentaram fugir da PF no momento das prisões e outros jogaram seus celulares de prédios, antes da entrada dos policiais. Os celulares foram recuperados e os foragidos foram localizados e presos.

INVESTIGAÇÕES

No início do ano, a PF recebeu informações que relatavam crimes e irregularidades que estariam ocorrendo no curso de medicina de uma universidade com sede em Fernandópolis. Segundo a denúncia, vagas para ingresso, transferência e financiamentos através do FIES para o curso de medicina estariam sendo negociados por até R$ 120 mil por aluno.

Durante oito meses de investigações, a PF apurou as informações recebidas e concluiu que o líder da organização criminosa é o próprio dono da universidade, que também ocupa o cargo de reitor. O empresário J.F.P.C., engenheiro, 63 anos, e seu filho, S.B.P.C, que também é sócio do grupo educacional, não só tinham conhecimento, mas também participavam dos crimes. Uma estrutura formada por funcionários e pessoas ligadas à universidade dava condições para que as fraudes fossem realizadas.

“Assessores educacionais”, com o apoio dos donos e toda a estrutura administrativa da universidade, negociaram centenas de vagas para alunos que aceitaram pagar pelas fraudes a fim de serem matriculados no curso de medicina.

Com o incremento desordenado de alunos de medicina no campus em Fernandópolis, a qualidade dos estudos foi prejudicada e alunos que ingressaram de forma regular procuraram o MPF para denunciar as fraudes. No decorrer das investigações, a PF identificou ameaças proferidas pelo dono da universidade aos alunos que fizeram as denúncias, além de tentativas de influenciar e intimidar autoridades, destruição e ocultação de provas, dentre outras ilegalidades.

De acordo com as investigações, os empresários estariam investindo os recursos obtidos com as fraudes em imóveis urbanos e rurais no Brasil e no exterior, além da compra de aeronaves (helicóptero, jatinho e avião) e dezenas de veículos de luxo, que estão sendo bloqueados. Por outro lado, o campus de Fernandópolis sofre com a falta de recursos financeiros, que estão sendo desviados para empresas do grupo investigado.

O nome da operação Vagatomia foi utilizado em alusão ao termo “tomia” que significa “corte”, comumente utilizado em palavras que denominam procedimentos cirúrgicos. Como os investigados reduziam as vagas do curso de medicina e FIES, na medida em que as vendiam, candidatos que teriam direito ao financiamento do Governo Federal sofriam com o corte das vagas disponíveis.

Todo o material apreendido foi encaminhado para a DPF em Jales para a realização de análise. Os presos foram indiciados pelos crimes de organização criminosa, falsidade ideológica, inserção de dados falsos em sistemas de informações e estelionato majorado, cujas penas somadas podem chegar a 30 anos de reclusão. Eles foram ouvidos e conduzidos para cadeias da região onde permaneceram presos à disposição da Justiça Federal.

BALANÇO DA OPERAÇÃO VAGATOMIA – PF JALES

•    19 - presos

•    03 - foragidos

•    01 - Simulacro de arma de fogo em Fernandópolis/SP

•    Dólares, reais e euros apreendidos (em contabilização), celulares, laptops, mídias de armazenagem de dados, e muitos documentos que serão analisados em conjunto com perícias nos equipamentos eletrônicos apreendidos;

•    Veículos, aeronaves e embarcações e valores em contas foram bloqueados de acordo com a ordem da Justiça Federal de Jales/SP;

•    Em um dos mandados de prisão, em São João das Duas Pontes/SP, o preso tentou fugir e se esconder eu um telhado, mas foi capturado logo em seguida pelos federais;

•    Em outro mandado em São José do Rio Preto, um casal foi preso. Antes dos federais conseguirem acessar o imóvel onde os presos residem, eles jogaram dois celulares e um laptop do oitavo andar, mas os equipamentos foram recuperados e passarão por perícia para extração de todos os dados;

•    Em outro endereço em São José do Rio Preto/SP, relacionado a um empresário preso, foi localizado um documento com o título “Como lavar dinheiro”;

•    Um empresário de São José do Rio Preto, dono de empresas que prestam cursos relacionados ao Revalida foi preso em São Paulo em um hotel de luxo.

•    Os donos da universidade investigada foram presos. Um em seu apartamento em São Paulo e outro em Guarulhos, no Aeroporto Internacional. Ele retornava de uma viagem ao exterior.

•    Todos os presos foram encaminhados para cadeias da região onde foram presos após audiência de custódia.

Em razão do grande número de denúncias que estão sendo recebidas via fone, a Delegacia da Polícia Federal de Jales pede a divulgação do e-mail: denunciaspfjales@gmail.com para pessoas que tenham informações sobre as fraudes identificadas na referida operação.

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