Personagem da Semana - Clayton Campos e Higor Arco Escola Livre de Teatro

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Há 32 anos, um dos maiores centros de cultura da região, a Escola Livre de Teatro (que virou Ponto de Cultura) é mais antiga que o próprio Teatro Municipal, onde está localizada, e está sempre em ebulição. Seja durante as aulas, ensaios, seja nas apresentações propriamente ditas, que acontecem em Jales e outras cidades onde são convidados. Por ali já passaram atores profissionais que atuam em palcos de vários estados do Brasil (e até fora do país) e na TV, mas também profissionais liberais e crianças que buscam reduzir a timidez e acabam se transformando pessoal e profissionalmente.  


Entre um cafezinho e outro, na tarde de quarta-feira, 22, conversamos com dois coordenadores do Ponto de Cultura, Clayton Campos e Higor Arco, sobre a retomada depois da pandemia, as dificuldades de financiamento da cultura, a reforma do teatro, o Sarau no Ponto e a 27ª Mostra de Teatro que está acontecendo nesta semana em vários locais da cidade, depois de uma pausa de dois anos causada pela pandemia. 


A Tribuna: Nestes 32 anos já passou muita gente bacana por aqui, né?
Clayton Campos: Sim, passou. Eu não sei falar um número, mas a nossa média era de 200 pessoas por ano no núcleo de formação, entre crianças e adultos. Profissionalmente, entre os que seguiram carreira, temos o Eduardo Bartolomeu, que trabalha com teatro em São Paulo, o Ítalo Sasso, que trabalhou em duas novelas da Globo, fez Malhação, o Douglas Chaves que está em Campinas, a Larissa Altomari que está em Belo Horizonte e já fez especialização na Itália, a Rafaela Samartino, que está em Santa Catarina, entre outros.  
Higor Arco: Temos médicos como o Dr. Manoel Paz Landim, que entrou no núcleo de formação, concluiu, assumiu o Projeto Asas e já montou espetáculo e agora está dirigindo uma das atrações da Mostra. Advogados, como o Carlos Melo que é parceiro nosso em vários projetos. 


A Tribuna: As pessoas procuram a Escola Livre de Teatro para atuar mesmo com interesse em se profissionalizar como ator, para se desenvolver pessoalmente ou como hobby?
Clayton Campos: Temos o Núcleo de Formação, o Núcleo de Produção e Difusão e temos o Núcleo de Dramaturgia e um público muito heterogêneo. Tem pessoas que querem seguir carreira e perguntam primeiro se a gente fornece o DRT (Registro Profissional na Delegacia Regional do Trabalho) e tem as pessoas que vem para se desenvolver, combater a timidez. Por exemplo: pessoas que estudam direito e querem se desenvolver para enfrentar uma audiência num tribunal do júri. A gente recebe mães que chegam aqui e dizem que a escola foi “receitada” pela psicóloga.

  
A Tribuna: E vocês veem resultado nessas pessoas, quer dizer, elas evoluem nessa questão depois de frequentar a escola?
Higor Arco: Muito! Nesta semana recebemos o relato de uma professora que contou que a aluna era muito tímida e tinha muita dificuldade até pra falar com a sala, mas depois que entrou na escola está bem diferente e até divulgou, na frente da sala, o espetáculo que ela vai apresentar na Mostra. Outro exemplo é a Lilá Isabela. Quando ela chegou aqui, era totalmente fechada, não conversava com ninguém e já fez faculdade de cinema, inclusive o filme dela foi lançado na segunda-feira e também faz parte da Mostra. 
Clayton Campos: O filme foi feito integralmente com pessoas de Jales e esses são exemplos que deixam a gente muito feliz porque dão a entender que a gente está fazendo alguma coisa certa.  
Nota: Lilá Isabela atuou como atriz em várias apresentações e é diretora e roteirista do filme “Querida Clara”, que estreou no dia 20, no Cine Jales, abrindo a Mostra de Teatro.  


A Tribuna: Podemos dizer que a 27ª Mostra de Teatro marca a retomada da atividade teatral em Jales, depois da pandemia?
Clayton Campos: Pode. Se bem que antes tivemos o Sarau no Ponto. Durante estes últimos dois anos estivemos longe do palco e agora a gente voltou para retomar isso e de uma forma bem forte.
Higor Arco: O nosso núcleo de produção já está bem ativo e se apresentando em muitos lugares. Em maio nós fizemos uma temporada de 17 apresentações num mês só, em várias cidades, fomos até para Pontes Gestal. Mas essa difusão do teatro aqui em Jales, sim, podemos dizer que é uma retomada. 


A Tribuna: Ultimamente tem se falado muito na Lei Rouanet e a gente vê que a Lei Aldir Blanc, que é semelhante, contemplou muita gente em Jales. Como vocês enxergam isso? É um auxílio importante para os profissionais da cultura?
Clayton Campos: Ela é a lei mais importante de incentivo à cultura que surgiu até hoje. Ao contrário da Lei Rouanet, a Lei Aldir Blanc foi construída de uma forma bem democrática, de baixo para cima, partiu de uma discussão da classe artística, os trabalhadores porque não atende só artística, mas os trabalhadores também. Desde técnicos, iluminadores, maquiadores, toda essa cadeia que ficou parada com a pandemia e esteve acessível a todos os municípios do Brasil. A divisão foi feita para que todos tivessem uma parcela. Aqui na nossa região, todos os municípios tinham direito. Chegamos a ouvir de pessoas de grandes centros que Jales teve uma gestão modelo dos recursos, mas a gente vem trabalhando nisso desde 2020.   
Higor Arco: Nós participamos de todas as etapas da elaboração da lei no âmbito estadual e nacional, participando dos debates, reuniões, fazendo sugestões praticamente todos os dias, construindo juntos. Quando foi aprovado, a gente já tinha parte do caminho trilhado e faltava só conseguir com a gestão a execução. 
Em Jales, foram utilizados a totalidade dos recursos, O município recebeu R$ 361 mil distribuídos para os trabalhadores da cultura. 


A Tribuna:  Então a Lei Aldir Blanc nasceu da necessidade financeira que os trabalhadores tinham durante a pandemia, mas serviu para não deixar a cultura morrer?
Clayton Campos: Exatamente! Ela é uma lei de auxílio emergencial, foi o que motivou. Houve grupos conhecidos nossos aqui em Jales que precisaram receber doação de cesta básica, então foi muito grave. Mas para além dessa questão financeira, ela valorizou a arte de muitos artistas, como o artesanato, os músicos que não conseguiram fazer a lives e foi acessível a todos, tanto para receber os recursos para o público. Não foi uma coisa elitizada.  
Higor Arco: Sem contar que muitos tiveram que interromper ou abandonar a carreira, procurar outra coisa para se sustentar e não passar fome. E nem todos conseguiram voltar. Está em tramitação no Congresso a Lei Aldir Blanc 2, que tem caráter perene. Foi aprovado, mas o presidente vetou e está na expectativa de derrubar o veto. 


A Tribuna: Ela é mais democrática que a Lei Rouanet por quê?
Clayton Campos: A Lei Rouanet é uma lei de isenção fiscal onde você consegue facilmente aprovar um projeto, mas nem sempre consegue captar o recurso para executar o projeto. Significa que eu estou habilitado a captar o recurso, mas tem que ter uma empresa que esteja interessada no projeto. Às vezes, a gente não consegue nem ser recebido pelo empresário porque ele tá sempre correndo e nem sempre quer sentar para ouvir esse tipo de proposta.  
Higor Arco: Existem empresas grandes que olham a lei de incentivo como uma coisa positiva porque em vez de recolher imposto meramente, ela pode investir em marketing, alinhando a sua marca ao evento cultural. Porém, é a questão que o Clayton falou sobre os famosos. Nós já aprovamos três projetos no ProAc ICMS que é um programa muito semelhante, mas não conseguimos captar. Os empresários às vezes nem recebem a gente. 


A Tribuna:  Falando sobre a Mostra, quantos espetáculos serão apresentados? 
Clayton Campos: A programação começou na segunda-feira e vai até este domingo, 26, São oito apresentações mais o filme, com pessoal de Jales e de fora, como Ilha Solteira e Piracicaba. São apresentações no teatro, na praça, no Projeto Corpo e Mente em Movimento, no Cine Jales e até em Dolcinópolis. A Mostra está sendo feita com recursos da Lei Aldir Blanc estadual. 


A Tribuna: Vocês aprovaram a reforma do teatro de Jales? 
Clayton Campos: Ficou muito bonito. Agora estamos conversando com a administração para conseguir a reforma da iluminação para que o teatro tenha condições técnicas melhores de receber grandes espetáculos. 
A 27ª Mostra Escola Livre de Teatro termina neste fim de semana com o “Auto da Camisinha”, às 10 horas, na Praça João Mariano de Freitas, e “Contos e Aventuras Populares”, encenada pelo Núcleo de Pequenos Atores, às 19h30, ambas no sábado no Teatro Municipal. No domingo, a Mostra se encerra com a apresentação de DROP, às 16h30, no Teatro Municipal, pela Cia Melissa & Paulo Teatro, de Ilha Solteira.   

 

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