Os cliques do amanhã

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Lutamos contra as ondas eletromagnéticas do wifi, enquanto antigamente brigávamos para usar o telefone ou o computador. Ficávamos semanas, até meses sem falar com as pessoas, e hoje resolvemos tudo num só toque. Aguardávamos filas para a consulta no médico, e hoje até cirurgias são realizadas por vídeo conferência.  Temos a guerra limpa dos drones onde quem mata não sente o cheiro do soldado.

Não há mais desculpas. Retorno no tema que para muitos está “batido”, mas que para mim faz todo sentido por me assustar a cada inovação. Já passou o tempo de esperar pela novidade, da ansiedade pela compra do novo. Segundo o psicanalista Alfredo Simonetti, a principal marca do mundo contemporâneo- que teve início em meados de 1958- é a rapidez. Temos excesso de coisas e de possibilidades. A busca pelo prazer tornou-se insana, pois o que era novo, hoje, em segundos torna-se velho.

Nosso tempo é caracterizado por imagens e frases curtas, nos vendemos uns para os outros a troco de luxúrias e para sermos o “Mário” de todo o jogo.  Sei que já toquei nessa tecla da contemporaneidade, em artigos anteriores, acontece que o rápido, a alta liberdade, o “tudo pode e é normal”, assusta, reprime e retrai aquele que não quer se expor.  O processo de adaptação prossegue no “agora”, é preciso que corpo e mente se comuniquem com a mesma língua do conjunto social.

Era para navegarmos a favor da maré, mas parece que estamos nos afundando, sendo inundados por toda tecnologia. Como o rio chegando ao mar, caracteriza-se a angústia que sentimos por sermos “pouco” diariamente. Não é sempre que somos princesas da Disney, ou os Super Heróis das revistas em quadrinhos.

Enquanto somos separados pela fronteira de “likes” nas redes sociais, peruanos que vivem em Lima, são excluídos pela diferença financeira.  A porta se fecha com a concentração de renda, a infância de lá não é a mesma daqui, os pequeninos crescem de olhos vendados para a realidade.

 As lentes virtuais captam as imagens, e os acontecimentos preciosos. A memória finita de gigabytes registra o show, a aula, o conhecimento, o teatro, os amigos, a família. Enquanto nosso chefe for a tecnologia, não poderemos formar nosso próprio “eu”. Continuará havendo cliques, enquanto pessoas são roubadas, ou até mesmo torturadas; “likes” enquanto pessoas se casam, ou possuem momentos felizes. 

O “valor”, que é um quesito relevante, será eleito para o virtual, e o supérfluo passa a ser o contato, o afeto, o “olho no olho”, o pessoal, o encontro, as experiências e sensações infinitas. Utilizando a citação de Rubem Alves, “talvez não haverá mais borboletas, pois a vida passará por uma dispensável metamorfose”.

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