Jales registra dois homicídios envolvendo moradores de rua em dois dias

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Antiga Estação Ferroviária de Jales foi palco de um dos homicídios registrados no último fim de semana

O Plantão Policial Permanente de Jales do último fim de semana registrou dois homicídios envolvendo moradores de rua e usuários de drogas e álcool. Os crimes não têm relação direta entre si e aconteceram em locais distantes, mas ambos aconteceram durante brigas em locais conhecidos pela concentração de desocupados. A Polícia Civil investiga as circunstâncias dos crimes e já prendeu dois suspeitos de serem os autores. Desde setembro de 2019 não eram registrados homicídios em Jales. 

O primeiro homicídio aconteceu no começo da tarde de sábado e se estendeu até a tarde de terça-feira, quando a vítima morreu depois de ficar internado em estado grave por dois dias no Hospital de Base de Rio Preto. 

O marmorista Samuel de Souza Oliveira, de 42 anos, foi empurrado de cima do coreto da praça João Mariano de Freitas, (Praça do Jacaré), por um morador de rua, durante uma discussão. Ele caiu sobre a rampa de entrada do banheiro feminino, batendo a cabeça com violência e sofrendo traumatismo craniano grave. 

De acordo com o Boletim de Ocorrência, um policial militar fazia patrulhamento de rotina pelo centro da cidade quando, ao cruzar a Rua Seis com a Rua Nove, percebeu um rapaz caindo do coreto da praça na rampa de acesso ao banheiro feminino. Inicialmente prestou o devido socorro, acionando o SAMU, uma vez que a vítima se encontrava desacordada e sangrando muito na cabeça.

Em seguida, se dirigiu a um grupo de aproximadamente seis moradores de rua que estavam no coreto e indagou o que havia ocorrido. Nenhum deles quis dar qualquer informação. O policial relatou que aparentemente estavam todos embriagados e envolvidos em uma briga generalizada no local. 

O autor só foi descoberto graças ao testemunho de uma mulher que se dirigiu voluntariamente até o policial e apontou quem teria sido o agressor. A identificação foi facilitada pelo fato de que o autor era o único que estava sem camisa entre o grupo. O suspeito foi conduzido até a Delegacia de Polícia, onde ele permaneceu preso. 

Naquele momento, André Luiz Martins da Cruz Salomão, de 24 anos, foi autuado por tentativa de homicídio. Porém, a acusação mudou para homicídio consumado, dois dias depois, quando Samuel morreu. 

No BO, consta que André estava morando da praça Dr. Euplhy Jalles, e Samuel era marmorista e morador da Rua Congonhas, no Jardim Aeroporto, em Jales. A família contou que ele realmente tinha endereço fixo e era trabalhador. Eles autorizaram a doação dos órgãos da vítima. 

O delegado operacional, Sebastião Biazi, que preside o inquérito que investiga o crime, já ouviu pelo menos duas pessoas. Ambas confirmaram o que já tinha sido descoberto pelo policial militar no momento da ocorrência. 

Segundo Biazi, tudo começou com uma briga de um casal que frequenta o coreto. Por motivos ainda a serem esclarecidos, André empurrou Samuel, que caiu do coreto de uma altura de aproximadamente 3,5 metros. A vítima frequentava o coreto, mas aparentemente, nem ele nem o seu algoz tinham envolvimento direto na briga. O suspeito permanece preso e o caso continua sendo investigado.   

A concentração de desocupados e usuários de drogas e álcool no coreto da Praça João Mariano de Freitas é um problema antigo. No começo de 2017, por sugestão de leitores, o jornal A Tribuna chegou a fazer uma reportagem sobre o assunto. Naquela ocasião, os moradores de rua tinham cercado o coreto com tapumes e estavam transformando o local em moradia permanente. 

A Polícia Militar foi até o local e os obrigou a limpar e desobstruir o coreto. Não durou muito e eles voltaram a dominar o coreto. 

CASAL COMPLICADO

O segundo homicídio aconteceu na antiga Estação Ferroviária de Jales, cerca de 29 horas depois do primeiro. Por volta de 17h30 de domingo, 14 de fevereiro, Silvia Regina Sangali Pereira, de 53 anos, matou com uma única facada no peito seu companheiro, o ajudante de padeiro, Jean Paulo Silva Santos, de 39 anos. 

Quando a polícia chegou ao local, a mulher estava lá e assumiu a autoria do delito, entregando à polícia uma faca que teria sido usada no crime. O objeto tem cerca de 15 centímetros de lâmina, e cabo de madeira parcialmente coberto por fita isolante, e possuía vestígios de sangue. 

Jean foi encontrado caído sobre a linha férrea, já em óbito, e com um ferimento superficial na cabeça (provavelmente causado pela queda) e um mais profundo no peito esquerdo, altura do coração.  

O crime teria ocorrido durante uma discussão entre os dois. Jean e a mulher pertenciam a um grupo de cinco ou seis sem-teto que estavam alojados nas dependências da estação havia alguns meses. Eles usavam energia elétrica e água do local e recebiam alimentação fornecida pela Casa do Migrante. O uso de álcool era constante e há suspeita de que os sem-teto também usem drogas no local. 

Sílvia se apresentou como faxineira, viúva, e moradora da própria estação, ou seja, não tem endereço fixo. Na delegacia, ela coutou que convivia com a vítima em união estável, há um ano e moravam na antiga estação do trem. Disse que ambos eram usuários de drogas ilícitas, mas estavam “limpos” havia quatro meses, porém, continuavam com o consumo de bebida alcoólica, principalmente cachaça. 

Sílvia alegou que foi agredida diversas vezes pelo convivente e chegou a registrar uma ocorrência policial, onde solicitou medidas protetivas contra ele. Entretanto, tempos depois o perdoou e os dois reataram o relacionamento e as agressões perduraram até o dia do crime. 

Ainda segundo ela, no sábado, depois de participarem de um almoço, onde fizeram um churrasco, ela saiu para catar material reciclável e, quando voltou, foi hostilizada com xingamentos e agressões. Por isso, pegou a faca que estava sobre a mesa e o atingiu com um único golpe no peito. Em seguida, tentou socorro para o companheiro e foi até a UPA pedir ajuda, mas a vítima faleceu no local. 

O delegado que registrou a ocorrência afirmou que as informações prestadas por ela precisam ser checadas porque não há testemunhas, uma vez que somente os dois estavam no local no momento do crime. A faca foi levada para perícia e Silvia foi para a Cadeia Pública de Nhandeara.   

BRIGAS CONSTANTES

A reportagem apurou que tanto Jean quanto Sílvia eram moradores de rua com várias passagens por clínicas de recuperação e retorno constante aos vícios, drogas e álcool. Jean vivia na praça Euphly Jalles e se instalou na estação em meados de 2019. Sílvia juntou com ele pouco antes do início da pandemia. “Ela sempre foi violenta nos surtos de droga e expulsou todos os demais andarilhos lá da estação, ficando somente os dois. As brigas eram constantes até que aconteceu o fato”, relatou uma fonte que acompanha os moradores de rua.

No Facebook, algumas pessoas se apressaram em comemorar a atitude da mulher e incentivaram outras a fazerem o mesmo. Diante da notícia, o chamado “tribunal da internet” tinha frases como “pois é desse jeito. Não tem lei. Ameaçou...mete bala nesses imundos”; “Proteção da Polícia já não tem. Uma hora cansa de apanhar e parte para cima. Assim se todas as que apanhassem dos maridos tivessem uma atitude de coragem e pelo menos machucasse [o agressor] uma vez na vida...” 

Uma outra mulher disse:  “É isso aí. Porque ele não agrediu um homem, que é forte. Tem que acabar com essa violência contra as mulheres. Quem sabe agora os homens vão ficar mais espertos e pensar 10 vezes antes de agredir uma mulher?”. Outra opinou que “as mulheres estão aprendendo a reagir, não é correto matar, mas infelizmente a lei não protege nós mulheres. A maioria que dá queixa na Lei Maria da Penha são mortas porque a polícia não tem como vigiar todas as mulheres agredidas”.

 

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