Incêndio no Bosque pode ter sido provocado por usuários de drogas

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Fotos tirada às 12h53 mostra que o incêndio ainda estava no começo. À direita, é possível ver que não havia aceiro

O incêndio que destruiu quase completamente o Bosque Municipal de Jales “Aristóphano Brasileiro de Souza” na tarde de terça-feira, 17 de setembro, pode ter sido provocado por viciados que freqüentam o local onde o fogo começou, num terreno particular entre o bosque e a Igreja Batista. Essa é uma das principais linhas de investigação da Policia Civil, que abriu um inquérito para apurar as causas e circunstâncias do caso. O lugar é um conhecido ponto de usuários de drogas e as marcas deixadas pelo fogo indicam que o incêndio começou a poucos metros de onde os viciados costumam se reunir.

A suspeita é reforçada por registros feitos a partir de 12h45 pela reportagem do jornal A Tribuna – a primeira a chegar ao local, ainda no momento em que o incêndio se iniciava. As fotos e os vídeos já estão com a polícia e deverão auxiliar nas investigações.

Eles mostram o início do incêndio ao lado do muro da Igreja Batista, nos fundos do terreno que é usado também como pastagem. Em seguida, o fogo se alastra pelo mato seco em direção à Avenida Paulo Marcondes e ao Bosque, que fica ao lado.

Outras fotografias feitas na tarde do dia seguinte à ocorrência mostram o que seria um “alojamento” de viciados. Há algumas cadeiras e poltronas velhas que, segundo populares ouvidos pelo jornal, são usadas para facilitar o consumo de entorpecentes. As marcas deixadas pelo fogo no pasto confirmam que o incêndio começou bem próximo do ponto onde esse “alojamento” está e corroboram os registros fotográficos.

O terreno tem duas entradas. Uma pela Avenida Paulo Marcondes e outra pela Avenida Francisco Jalles, no trecho ao lado da Vila União. A reportagem apurou que é por essa última entrada que os viciados acessam o terreno e é também por onde entra o gado que pasta ali.

Porém, apenas o resultado da perícia da Polícia Científica poderá afirmar com certeza as causas do incêndio, que também pode ter sido proposital. Os peritos visitaram o Bosque no fim da tarde de terça-feira, mas não se sabe se visitaram o ponto de origem do fogo.

O delegado Sebastião Biazi disse que está buscando testemunhas que serão ouvidas e vai anexar as fotos e os vídeos ao processo. Porém, ressalvou que se trata de um inquérito bastante complexo e detalhado, que vai exigir bastante trabalho e tempo. “Podem ter sido os usuários de drogas, mas quais? Isso precisa ser confirmado e, depois, se for positivo, precisamos identificá-los. Mas temos outras linhas de investigação e vamos ouvir todos os envolvidos”.

As condições do aceiro que deveria separar o terreno onde começou o fogo e o Bosque também é outro ponto a ser analisado pela polícia. As fotos mostram que o mato estava alto e praticamente alcançava a altura da cerca na margem do imóvel, ou seja, o intervalo de vegetação que deveria servir de barreira para o fogo não existia.

Segundo a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), aceiros são faixas ao longo das cercas onde a vegetação foi completamente eliminada da superfície do solo. A finalidade é prevenir a passagem do fogo para área de vegetação, evitando, assim, queimadas ou incêndios.  Em época de seca é comum a ocorrência de queimada em pastos e uma das formas de evitar o problema é fazer aceiro. Ele protege cercas, postes, balancins e arames. Devem ser feitos no início do período seco, quando a vegetação começa a secar. É uma maneira eficaz de evitar a entrada de fogo nas invernadas. Recomenda-se que sejam confeccionados ao longo de cercas divisórias com outras fazendas, nas invernadas dentro da própria fazenda e nas divisórias de estradas rodoviárias. Para fazer o aceiro é necessário tirar a vegetação nos dois lados da cerca.

Informalmente e ainda no local, o secretário de Planejamento, Desenvolvimento e Mobilidade Urbana, Nilton Suetugo, disse que havia aceiro, mas tinha sido tomado pelo mato.

Já a secretária de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Meio-Ambiente, Silvia Andreu Avelhaneda, garantiu que a pasta fazia aceiro no local. “Em alguns pontos, não é possível porque trata-se de vegetação nativa que fica perto de uma Área de Preservação Permanente (APP) em torno de um córrego, então não é possível passar com a máquina lá”.

 

Fogo atingiu cerca de 200 mil metros quadrados

 

O fogo que se iniciou no começo da tarde de terça-feira, dia 17, ainda podia ser visto cerca de 24 horas depois. No fim da tarde, a pista direita (sentido bairro-centro) da Avenida José Rodrigues, que limita o Bosque Municipal do bairro Jardim do Bosque, precisou ser interditada. Muitas árvores foram seriamente danificadas e havia risco de que caíssem. Algumas ficaram ocas e outras tiveram a base do tronco destruída.

Com a chegada da noite, vários focos podiam ser vistos com certa facilidade, bem como na manhã seguinte. Pouco depois do meio-dia de quarta-feira, o incêndio recomeçou em uma árvore bem próxima da base da Polícia Ambiental, e as equipes da Defesa Civil e da Secretaria de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Meio Ambiente voltaram a ser mobilizadas. O caminhão-pipa da pasta foi ao local e extinguiu o fogo.

No total, o incêndio consumiu cerca de 200 mil metros quadrados, incluindo os 185 mil que pertencem ao Bosque e o pasto onde o fogo começou. As comemorações do Dia da Árvore (21 de setembro), que estavam marcadas para a semana que passou, foram adiadas.

Recuperação vai envolver estudantes e comunidade em geral

A secretária de Agricultura, Silvia Andreu Avelhaneda Pigari, disse que pretende mobilizar estudantes e clubes de serviço na tarefa de recuperação da mata, mas que o trabalho não vai começar tão cedo. “Vamos esperar o período das chuvas porque antes disso seria desperdício de mudas. Teríamos que usar muita água e correríamos o risco de perder tudo. Então vamos esperar algum tempo”.

O envolvimento da comunidade é uma ação para promover a conscientização, a necessidade de preservação e o sentimento de posse do patrimônio ecológico do município. O contato direto com o bosque pode despertar nos participantes a vontade de preservar a natureza.   

Inicialmente, será necessário fazer uma “higienização” do local, retirando plantas queimadas e resíduos que possam atrapalhar o desenvolvimento das novas plantas. Em seguida, serão selecionadas espécies e mudas do Viveiros Municipal para serem plantadas pelos voluntários comandados pelos profissionais da pasta e os policiais ambientais.

Silvia explicou que havia aproximadamente 50 espécies de mudas nativas típicas da mata atlântica, mas não soube especificar quais eram. “Com certeza, tinha Pau-Brasil original, mas o catálogo completo nós não temos”.

 

Sede da Polícia Ambiental não tinha Alvará dos Bombeiros

 

Quem esteve no local naquela tarde testemunhou a enorme dificuldade para evitar que as labaredas atingissem a sede da Polícia Ambiental, que fica na entrada do Bosque, na Avenida José Rodrigues, nº 57. Inicialmente, os homens retiraram as viaturas do local e, em seguida, improvisaram mangueiras para molhar as árvores em volta do prédio e formar uma espécie de barreira molhada. Um caminhão-pipa da Prefeitura e, finalmente, o caminhão dos Bombeiros, auxiliaram no serviço. Voluntários da Secretaria de Agricultura e até um veterinário entrou no mato para jogar água na vegetação.

A dificuldade exigiu esforço redobrado dos policiais ambientais, que poderiam ter sido menos exigidos, se a sede da corporação tivesse adequada às normais de segurança e combate a incêndios do próprio Corpo de Bombeiros.

Em maio deste ano, o jornal A Tribuna noticiou que o prédio era um dos 31 sob a responsabilidade da Prefeitura Municipal que não possuía o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros), conhecido como “Alvará do Corpo de Bombeiros”. O documento é a comprovação técnica de que a edificação atende à legislação de combate e prevenção a incêndios e seus freqüentadores e funcionários não estão sob risco eminente.

 

Prefeitura tinha prometido ao MPF construir quiosques e parque

 

A Prefeitura de Jales tinha assinado, no dia 6 de junho de 2017, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal (MPF) se comprometendo a revitalizar o Bosque Municipal em 30 meses. No ano anterior, o MPF instaurou um inquérito civil para apurar o mau uso de recursos federais destinados ao município para a urbanização do Bosque. Em 2008, a Prefeitura de Jales recebeu R$ 146 mil do Ministério do Turismo para recuperação do espaço, mas o MPF apurou que o convênio com a União foi executado, e sua prestação de contas, realizada. Mas, apesar dos investimentos, o parque não tinha condições de atender a população.

Apenas a primeira parte do acordo foi cumprido pela Prefeitura. Em três meses, a Prefeitura foi obrigada a realizar ações de limpeza e sinalização, removeu entulhos do local, reforçou o cercamento e instalou placas educativas ou proibitivas no bosque.

O acordo previa a ampliação e recuperação de trilhas ecológicas para permitir o acesso de crianças, idosos e deficientes físicos, construção de playground, quiosques para lazer e descanso em pontos estratégicos e elaboração de plano de gestão e vigilância do local.  Não se tem notícias de que qualquer dessas benfeitorias tenha sido feita.

 

Corpo de Bombeiros destacou equipe  de três homens e não usou água

 

A atuação do Corpo de Bombeiros foi bastante questionada pela grande maioria das pessoas que acompanharam a evolução do incêndio. As criticas se referiam principalmente ao começo do trabalho no local do foco inicial.

Além de demorar muito para chegar ao local que fica distante 2,4 km do quartel, apenas uma reduzida equipe de três homens em um caminhão esteve no ponto inicial do incêndio, o terreno entre a Igreja Batista e o Bosque Municipal, na Avenida Paulo Marcondes. Ainda assim, dos três, apenas dois realizaram procedimentos de combate ao fogo, usando o equipamento conhecido como “soprador”. O motorista ficou ao lado do veículo conversando com populares e não calçou qualquer equipamento. Entre os dois bombeiros que portavam “sopradores”, apenas um acionou o aparelho e foi até as chamas, onde permaneceu por menos de 5 minutos, recuando em seguida para se juntar ao segundo homem e se dirigir para a sede da Polícia Ambiental, de onde não retornaram.

Além disso, somente depois que já tinham se passado mais de 30 minutos do início do fogo e pelo menos 20 da chegada da equipe é que os bombeiros usaram água. Ainda assim, por pouco tempo, uma vez que a equipe deixou o local alegando que iria reabastecer.

A reportagem apurou junto ao quartel que outra equipe com quatro homens foi ao local “em um carro pequeno”, mas essa equipe não usava equipamentos específicos e não esteve no ponto inicial do incêndio, onde o fogo se iniciou.

Em entrevista a uma emissora de rádio local, o pedreiro Matheus, que trabalha na obra da igreja, relatou como foi o início do incêndio. “O fogo começou por volta de meio-dia e 45. Eu e meus companheiros de trabalho, o Anderson e o Clodoaldo, abrimos a cerca para soltar o gado que estava lá e ía acabar morrendo queimado. Não sei porquê demoraram quase 15 minutos para chegar lá. Um tempo que, às vezes, poderia até ter evitado [o incêndio].”

Os populares ficaram estarrecidos com a demora e disseram não entender o porquê de os homens não usarem água contra o fogo ou para molhar a mata, se antecipando à passagem das chamas. Inconformados, funcionários das escolas que ficam em frente ao bosque (Oswaldo Soler e Jacira de Carvalho), policiais militares e até funcionários da Sabesp, se mobilizaram para ajudar. Eles estenderam uma mangueira reservada para a brigada de combate a incêndios da escola e jogaram água onde os bombeiros não atuaram. Um policial militar e um popular pularam o alambrado, usaram a mangueira em meio às cinzas e às chamas. Um rapaz teve que tirar a camiseta que usava e envolver o rosto para evitar inalar a fumaça.

Sandra Regina Vomeiro, diretora de uma das escolas contou informalmente ao jornal que chegou a pedir aos bombeiros para usar a mangueira, mas não obteve qualquer resposta. Foi ela quem tomou a iniciativa de usar cones para fechar o tráfego na avenida. Além disso, ela tinha dúvidas sobre os motivos que fizeram os bombeiros deixarem o local supostamente para reabastecer o caminhão. “Não entendi por quê eles foram embora para abastecer lá longe. Tem um hidrante aqui na escola e só eles podem usar”.

Na terça-feira, quarta e quinta, a reportagem procurou a Assessoria de Imprensa do Corpo de Bombeiros por telefone, por e-mail e através do formulário disponível no site da corporação, mas até a manhã de sexta, quando esta reportagem foi finalizada, obteve apenas a promessa de resposta.   

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