Delegado da PF de Jales vai assumir a delegacia de Rio Preto

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O delegado Cristiano Pádua da Silva durante entrevista coletiva para explicar detalhes de uma das operações contra corrupção na Prefeitura de Jales

A nomeação ainda não foi publicada e deve levar alguns meses, mas o delegado chefe da Delegacia de Polícia Federal de Jales será o próximo delegado da DPF de São José do Rio Preto. Cristiano Pádua da Silva aceitou o convite para assumir uma vaga aberta pela saída do delegado chefe daquela unidade, André Luiz Previato Kodjaoglanian, que vai deixar o cargo para disputar uma vaga de vice-prefeito em Lins-SP. O convite foi feito na semana passada. A saída de Previato foi publicada no Diário Oficial da União no dia 31 de março, última terça-feira. Ele será candidato pelo PSD a vice-prefeito na chapa do também delegado, mas da Polícia Civil de Lins, João Pandolfi (PP).


A informação foi publicada inicialmente por um jornal de São José do Rio Preto e confirmada por uma fonte dentro da DPF de Jales. 


Segundo essa fonte, Cristiano Pádua da Silva ainda está debruçado em inquéritos e investigações importantes, como a Vagatomia (que investiga uma série de irregularidades na concessão de vagas do curso de medicina na Universidade Brasil). Ele deve assumir o cargo depois da conclusão desse trabalho, no começo do segundo semestre, quando também vence o período para registro de candidaturas e de afastamento de servidores que pretendam se candidatar.   


O nome do seu substituto ainda não está definido e é provável que seja alguém de outro estado da federação. O superintendente da PF já fez diversos convites para delegados de outros estados, mas ainda não obteve resposta. 


HISTÓRICO
Mineiro de Belo Horizonte, Cristiano era um eficiente delegado substituto na Delegacia de Polícia Federal de Jales, quando foi promovido a delegado-chefe da unidade em setembro de 2013, em substituição a Vinícius Faria Zangirolani, que foi transferido para a unidade de Londrina (PR).  


O policial goza de grande prestígio entre a população jalesense. Em parte pelo estreitamento da relação da PF local com a imprensa, mas principalmente por ter participado ou comandado operações de grande repercussão contra a corrupção na administração pública. 


Em 2013, a Operação Fratelli, teve repercussão nacional e investigou dezenas de indivíduos que estariam participando de um esquema milionário de fraudes em licitações públicas. 


Graças ao trabalho da PF, o Ministério Público Federal denunciou dezenove pessoas envolvidas na chamada “máfia do asfalto”, especializada em desvios nos contratos de pavimentação e recapeamento de asfalto em municípios do noroeste do estado de São Paulo. De acordo com as investigações, o valor desviado pode chegar a 1 bilhão de reais e envolve oitenta cidades paulistas. O grupo foi denunciado pelos crimes de formação de quadrilha, falsidade ideológica e fraudes em licitações. A Justiça aceitou a denúncia.


Sob o seu comando, a PF de Jales mandou para a cadeia pelo menos dois prefeitos da região. Airton Saracuza, de Urânia, e de Dolcinópolis-SP, José Luiz Inácio Azevedo, que foi preso com um laranja, em Porto Seguro-BA, além de ter realizado dezenas de apreensões de drogas e prendido dezenas de criminosos.


Algumas operações surpreenderam e chocaram a população, seja pelo volume de recursos desviados, pela covardia dos criminosos (que lesaram hospitais, órgãos da Saúde, Educação e Merenda Escolar, entre outros) ou pela facilidade com que efetuaram seus crimes. 


HOSPITAL DE AMOR

Na manhã do dia 8 de novembro de 2016, a população jalesense acordou atônita com a informação de que homens da Polícia Federal tinham prendido o gerente administrativo do Hospital de Câncer, até então, considerado pessoa de reputação absolutamente limpa. Tratava-se da operação “Corrente do Bem”, que investigou um esquema de fraudes no hospital. Na ocasião, a PF cumpriu três mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Estadual de Jales, além da prisão dos três envolvidos, todos investigados por desvios de recursos do hospital em benefício próprio, mediante pagamentos suspeitos em supermercados, hotéis, oficinas mecânicas, lojas de pneus, postos de combustíveis, restaurantes, transporte de passageiros, entre outros. Os prejuízos chegaram a R$ 788 mil. Cinco veículos pertencentes aos acusados foram apreendidos pela PF e pelo menos dois deles foram, posteriormente, entregues para uso do hospital. Os três foram condenados.


Em abril do ano passado, uma médica pertencente a uma conceituada família jalesense foi condenada por enriquecimento ilícito. A médica S. R. Q. L. e a empresa QL Serviços Médicos Ltda foram condenadas à devolução de R$ 161,4 mil aos cofres da Prefeitura de Jales, devidamente atualizados e ficaram proibidas de firmar contratos com o poder público por 10 anos e terão que pagar, de forma solidária, uma multa civil também no valor de R$ 161,4 mil. A médica foi condenada, ainda, à perda de seus direitos políticos pelo prazo de 8 anos.


O caso começou quando o próprio delegado desconfiou da postura da médica na unidade básica de saúde “Zilda Arns” (Jardim Novo Mundo). Cristiano percebeu que a médica simplesmente deixou a unidade durante o expediente e determinou que agentes da PF acompanhassem a sua rotina. Durante três meses, os PFs fotografaram a médica realizando afazeres particulares, como ir ao cabelereiro, durante o período em que deveria estar dando expediente na unidade de saúde.


BAGUNÇA ADMINISTRATIVA
Em 31 de julho de 2018, mais uma operação que fez cair da cama boa parte da população da cidade. A então tesoureira do município e toda poderosa, Érica Carpi de Oliveira, que mandava e desmandava na tesouraria durante diversos mandatos administrativos, e outras cinco pessoas, foram presas acusadas de terem desviado mais de R$ 5 milhões dos cofres do município. Além dela, a secretária de Saúde também foi detida, mas depois liberada. De acordo com as investigações, foram desviados R$ 9.246.588,32 durante mais de dez anos. O dinheiro foi direcionado para pagamentos de boletos bancários, transferências para contas das empresas do marido de Érica e para contas de familiares da ex-tesoureira, além de investimentos em três lojas e imóveis dela e do marido Roberto dos Santos Oliveira. A descoberta do caso ainda choca a população, que até hoje cobra condenação dos envolvidos. 


Os recursos desviados da Prefeitura também foram utilizados pela ex-tesoureira para pagamentos de salões de beleza, boutiques, cirurgiões plásticos, dermatologistas, esteticistas, viagens, festas para toda a família, enfim, uma farra com os recursos do município, que era efetivada mediante emissão de cheques em contas correntes da Prefeitura, sendo que uma delas foi cadastrada fraudulentamente pela ex-tesoureira em nome do Fundo Municipal da Saúde. 


Os desvios milionários ocorreram mensalmente por pelo menos dez anos, durante quatro gestões do município quando eram prefeitos Humberto Parini, Eunice Mistilides Silva, Pedro Manoel Callado Moraes (atual procurador jurídico municipal) e Flávio Prandi Franco (atual prefeito).


Segundo a Polícia Federal, nos últimos anos, a ex-tesoureira Érica Cristina Carpi, estava desviando, em benefício próprio, até R$ 200 mil todos os meses sem nenhuma supervisão por parte de seus superiores hierárquicos.


FARRA NO TESOURO 2
No dia 14 de fevereiro de 2019, a PF voltou à vasculhar as gavetas da Prefeitura de Jales na segunda fase da Operação Farra no Tesouro. Dessa vez, os policiais descobriram um esquema de fraudes em contratação de empresas de seguros para os veículos da Prefeitura. A Polícia Federal prendeu duas pessoas sócias da empresa que prestou serviço. Na ocasião, um servidor responsável pelo setor de licitações foi afastado do cargo por determinação da Justiça e deveria manter distância mínima de 200 metros da Prefeitura. A suspeita da PF é de que o esquema tenha provocado prejuízo de R$ 3 milhões ao erário de 2015 para cá.


A polícia ainda fez buscas e apreensões de celulares, computadores e documentos da empresa que atua como corretora. Também apreendeu armas com um dos sócios, entre as quais duas espingardas.


Segundo o delegado da Polícia Federal de Jales, Cristiano Pádua, a Prefeitura fazia seguro de veículos com dispensa de licitação de forma direta. “Foram detectados novamente diversos desvios causando grande prejuízo para o tesouro municipal, para a população. Eram feitos seguros de veículos de forma inadequada, errada e ilegal. Detectamos prática de crime de fraude de licitação”.

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