Chico eterno

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 Literalmente eu não tinha planos de escrever sobre ele na coluna de hoje. O artigo era outro, mas, como a imprensa “adestrada” anda falando bobagens sobre ele, não sei se foi pela declaração de apoio ao governo Dilma ou pela questão da biografia, enfim, “PIG” a parte, vamos lembrar que hoje é domingo, e que domingo! Se o jornalista Tarso de Castro (um dos mentores intelectuais do semanário O Pasquim, que revolucionou a imprensa brasileira) estivesse entre nós, com toda essa mediocridade musical que assola o país, ele diria:- “hoje, como todos os dias é dia de Chico! Sim, dia do gênio Francisco Buarque de Hollanda!!!

Hoje é domingo, dia de macarrão, da família, do futebol, do silêncio dos Deuses, do programa Brasil & Cia do nosso querido animador cultural Cardosinho, mas, também é dia de Chico.   Hoje, domingo, no dia do Chico, o Brasil dorme em berço esplêndido, talvez Deus nos fale pelos sonhos, ou, talvez, Ele tenha se esquecido da gente. De onde vêm nossos poetas, para onde vai o nosso povo? Esquecido em algum lugar do atlântico, o Brasil encara o mundo com desfaçatez.

Se, para os franceses, a literatura se casa com a filosofia; para nós, brasileiros, a canção popular se enlaça de corpo e alma com a literatura. E lê-se a música. As crônicas de Noel Rosa, a poesia de Vinícius, os aforismos de Caetano, os ditos de Caymmi, o sertão de Vandré, os sabiás e a flora de Tom Jobim, o coração de Milton Nascimento, e os outros poetas e cronistas e literatos da nossa  canção popular. 

O Chico não. Este é um demônio. Tem a idade das pedras, como diria Vinícius. É o gênio da raça, como diria Jobim. Cronista, poeta, dramaturgo, novelista, romancista, lírico, épico, trágico, lúdico, sarcástico, historiador, político, feminino, infantil. Um arquiteto da palavra. Chico Buarque de Holanda é, sobretudo, brasileiro. Gosta de samba, futebol e do Rio de Janeiro. Meu caro amigo, me perdoe, por favor, mas sinto até inveja. Além de tudo, é um ótimo músico. É mestre em entrelaçar a prosódia da melodia com a das palavras. As notas pingam sobre    as sílabas e vice-versa. 

Chico é diabólico, é filho das raízes do Brasil, é um esteta da Língua Portuguesa, essa esquecida língua dos anjos. De que lugar mesmo do atlântico? Talvez de algum lugar esplêndido e demoníaco. É gênio ao falar de um operário desiludido que comete o suicídio e ainda, por cima, morre na contramão, atrapalhando o trânsito. Ao falar de uma prostituta que salva a cidade do enorme zepelim, mas não escapa das pedras e das bostas do preconceito. Ao falar da moça feia debruçada na janela, achando que a banda             tocava         pra     ela. 

Ou, então, do amor partido, de um sangue que errou de veia e se perdeu; ou da mulher que espera o marido voltar bêbado do bar; da mãe que arruma o quarto do filho que já morreu; do guri que rouba uma bolsa já com tudo dentro pra encher de orgulho a sua mãe. 

O Chico cronista fala do dia a dia do nosso país, o Chico político contestou (como ninguém!!!)  a ditadura. O Chico amante descreve o amor cotidiano; o Chico malandro abusa do jeitinho brasileiro; o Chico poeta lapida a nossa Língua; o Chico historiador nos conta sobre Calabar e as mulheres de Atenas; o Chico sambista exalta o carnaval; o Chico humanista chora a gente humilde e os menores abandonados.

Chico é um demônio, tem a idade das pedras, e talvez seja a própria alma brasileira. Essa alma que não se deixa fustigar e, esquecida em algum lugar do atlântico, encara o mundo sempre com desfaçatez.

Hoje é dia do Chico compositor, intérprete, poeta e escritor, Chico Buarque é hoje uma referência obrigatória em qualquer citação à música brasileira dos anos 60 pra cá. Sua influência é decisiva em, praticamente, tudo que aconteceu musicalmente no Brasil nos últimos 50 anos, pelo requinte melódico, harmônico e poético que suas obras       apresentam.

Chico não tem idade. É eterno.

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico...

 

 

 

 

 

 

 

*Marco Antonio Poletto é Gestor no Poder Judiciário, Historiador, Articulista e Animador Cultural

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