Belchior: mais do que apenas um rapaz latino-americano

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“Eu sou apenas um rapaz latino-americano…”. Esses versos marcam a memória de muitos brasileiros sobre Belchior, o grande cantor e compositor cearense que morreu  no último domingo (30) aos 70 anos. Como poucos artistas brasileiros, Belchior deixou em seus versos e canções a evidência de se considerar um verdadeiro latino-americano.

( Vitor Taveira )

“Essa música vem sendo a minha identidade durante todo esse tempo; identidade não apenas minha, mas de muitas pessoas da minha geração, que são definitivamente rapazes latino-americanos porque o Brasil em nenhum momento perdeu a sua identidade com a América Latina”, comentou em entrevista à Rádio Nacional em 1987. 

“E eu acho que essa música tentava inclusive realçar a condição terceiro-mundista do Brasil e a sua participação na fraternidade latino-americana que deve ser realçada com um projeto de humanidade, de solidariedade, muito importante social, política e artisticamente”, complementa. 

“Tenho 25 anos de sonho e de sangue e de América do Sul”, canta com orgulho em À Palo Seco, outro sucesso. “Por conta desse destino, um tango argentino me cai bem melhor que um blues”.

Em outras canções menos conhecidas, Belchior foi além de curtas frases e fez homenagens e referências diretas ao continente.

“Quinhentos Anos de Quê?” É um verdadeiro tributo anticolonial. Foi composta em 1992 em parceria com o uruguaio Eduardo Larbanois, na esteira dos protestos e críticas de movimentos sociais e intelectuais sobre as comemorações dos “500 anos do descobrimento da América” que se realizavam naquele ano. Comemorar um genocídio? “Eram só três caravelas/ valeram mais que um mar/ Quanto aos índios que mataram /Ah! Ninguém pôde contar”, canta Belchior, que logo pergunta “Há motivos para festa? /Quinhentos anos de quê?”.

Outra canção dedicada ao continente é Voz da América, que logo na primeira frase faz referência à belíssima canção “El Condor Pasa”, um dos maiores sucessos da música andina (gravado por Paul Simon e pela magnífica voz da peruana Yma Sumac, entre outros). “É uma música sobre a latinidade, uma música que tenta um contato mais novo, mais eficaz com a tradição latino-americana. Mas não simplesmente a tradição latino-americana como ela tem sido vista parcialmente por um determinado número de cantores e de compositores”, disse à Rádio Nacional. Ele se referia à influência de grandes nomes como Vitor Jara, ou a Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui, a Violeta Parra, vinculados ao movimento da “nueva canción latino-americana”, do estilo da canção-protesto que unia letras politizadas e uma profunda imersão na cultura popular, trazendo elementos da música folclórica. Figuras pelas quais o brasileiro nutria grande respeito e se deixava influenciar. Mas Belchior queria mais, talvez quisesse ir além do que era escutado nos círculos esquerdistas durante a ditadura. “É uma música que tenta um contato com uma latinidade total, a latinidade que inclui tango, o bolero e muitos e muitos outros cantores (…) que inclui também Gardel, Goyneche, Susana Rinaldi, que inclui todos os outros cantores e cantoras que fazem a tradição total e rica da música latino-americana”. Em outras canções, Belchior se solta mais na musicalidade, arriscando um diálogo com a salsa e ritmos caribenhos, com se observa em Bucaneira e Ploft. Na primeira, faz referência a José Martí, poeta, político e líder da Independência de Cuba, morto em combate. Na segunda, lembra das “venas abiertas de Latino América”, em alusão ao livro de Eduardo Galeano, grande clássico que retrata a história política do continente, denunciando a exploração ocorrida nessas latitudes. Em várias ocasiões incluiu frases ou palavras em espanhol dentro de suas letras. Fala da liberdade buscada “con tesón y voluntad”, como cantava o trovador argentino Atahualpa Yupanqui em Los Hemanos. Nessas canções em que dialoga com Nossa América, talvez podemos arriscar um palpite do que seria a ideologia, a utopia escondida na melancolia e acidez da poética de Belchior: uma anarquia tropical, de uma liberdade sofrida, porém sensual e “bailable”. E não foi só Belchior que buscou a América Latina. Seu som também ecoou para fora do Brasil e foi inclusive interpretado em espanhol por artistas de outros países da região. Um dos destaques fica para o disco Eldorado, gravado junto a Eduardo Larbanois e Mario Carrero, que compõem um importante duo da música popular uruguaia. Grande estudiosa da obra de Belchior, Josy Teixeira, doutora em Letras pela USP, defende que o artista era muito além de apenas um rapaz latino-americano vindo do interior. “Esse personagem que o Belchior criou do rapaz latino-americano que migra que sai de uma cidade pequena no interior do Brasil e vai para uma grande metrópole em busca de oportunidades melhores para viver, sem dúvidas é uma imagem que o Belchior aprecia bastante, mas a obra dele não pode ser reduzida a esse personagem, exatamente porque ele investe em muitos outros aspectos em seu trabalho musical”. Josy ressalta a complexidade que faz com que Belchior seja singular, único no universo musical brasileiro (e porque não dizer, latino-americano…). Ela destaca que sua obra pode ser analisada desde diversas perspectivas: das letras extensas e discursivas, da maneira de cantar extremamente nasal e tipicamente nordestina, da forma e o conteúdo das canções, do investimento no concretismo e no trovadorismo que tanto apreciava, dos diálogos com outros universos para além das artes, como a filosofia, a religião e a política.

Belchior. Apenas o cantor? Apenas um rapaz vindo do interior? Cearense sim, brasileiro também, mas con un corazón latino-americano.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(*)Marco Antonio Poletto é gestor no Poder Judiciário, Historiador, Articulista e Animador Cultural.

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